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| Por Carvalho Araújo

TEMPO NA ARQUITETURA

O tempo, no abstrato uma coisa longa, resume-se hoje a momentos.
Sem tempo para o prazer, desfrutar do resultado, sem tempo para compreender, assimilar, refletir, melhorar...
O tempo em que a imagem precede o conceito tornou-se o número de ilusionismo, em que o cliente é agora detentor de uma realidade virtual, em que a aproximação à realidade é a sua maior mentira e o arquiteto um ilusionista forçado.

A visualização virtual descompromete o cliente do tempo de percurso, história, consistência, confiança e filosofia do autor/ arquiteto. Condensa-se a relação espaço-tempo num único momento de imagem, em que o projeto se apresenta ao cliente tão tangível como o real, mas sem as complexidades do espaço e do lugar físico.
Tão fácil a ilusão da decisão aparentemente consciente do cliente e aproveitada pelo arquiteto.

Contribuímos passivamente para a cidade lixo.
Este é o tempo do edifício-obra, produto comercial, produto sem conteúdo, que se vende a si mesmo, autista, relevante como espetáculo, mas sem prática e intemporalidade. Contribuímos passivamente para a cidade lixo como a descreve Reem Koolhaas.
Obriga-se o arquiteto a reajustes de abordagem, a tornar-se um gestor, não no sentido poético e diplomático, mas numa perspectiva de procura de outros modelos de abordagem aos mercados.
Hoje vejo-me a ganhar tempo em viagens que faço sozinho. A qualidade do tempo é tão ou mais importante que a sua quantidade. Quando sobrecarregada, a mente para num limbo de ausência, de pensamento sem memória. E sem memória não há tempo! Por isso o tempo hoje é apenas uma fração de si próprio.
Nesta urgência de tempo deixaremos de conseguir criar património e acabaremos por dar razão aos que fundamentam a preservação incondicional do antigo. Seremos forçados a ver a arquitetura com um produto industrial, com um tempo muito próprio de vida. Curto, eficaz mas descartável.
 
Este é o nosso tempo de fazer...