| Por Andreia Filipa Ferreira

Correia Ragazzi

"Há uma grande banalização da atividade do arquiteto"

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Desde criança que o futuro de Graça Correia parecia estar traçado. Estudou na escola primária desenhada por Fernando Távora e cresceu a querer organizar os espaços que a rodeavam. Quando o ensino superior chega, opta pela Faculdade de Arquitetura do Porto e, desenhando um percurso que revelava o seu talento inato, começa a trabalhar ao lado do inconfundível Eduardo Souto de Moura. Anos depois, Roberto Ragazzi, um DJ italiano que se apaixona pela arquitetura, junta-se às ambições de Graça Correia e, juntos, fundam o estúdio CORREIA/RAGAZZI, no Porto, reconhecido recentemente com o prémio Best Architects 16.

 

Com passados diferentes, a Graça e o Roberto acabam por se encontrar, fundando em 2005 o estúdio CORREIA/RAGAZZI. O que vos uniu?

Curiosamente, a nossa primeira aproximação fez-se através da música. Conhecemo-nos através de amigos comuns e das afinidades em termos musicais. Depois surgiu a oportunidade de trabalharmos em conjunto e foi muito interessante porque percebemos que tínhamos umas abordagens que, mesmo com características distintas, tornavam a nossa colaboração muito complementar.

 

Qual é a vossa visão sobre a realidade da arquitetura em Portugal?

Hoje em dia, achamos que a arquitetura se está a afastar um pouco da sua tradição. Trabalha-se em rede, mas um escritório é muito mais que isso. Precisa de um espaço de convergência, de discussão entre arquitetos, colaboradores e engenheiros, com uma grande mesa de reuniões onde possam estar as maquetas e os desenhos para que se possa refletir sobre eles e ‘afinar’ as soluções. O país, em termos de realidade de trabalho, está muito dividido. É certo que a qualidade aumentou, com escritórios cada vez mais sérios. Mas há um problema muito grande a nível da encomenda, problema esse que parte do Estado. Ou seja, uma obra de arquitetura é reconhecida como um bem de interesse público, que será deixado como herança para as próximas gerações. Ora, sendo assim, não se percebe por que o Estado não reconhece a arquitetura como tal e é o primeiro a dar o mau exemplo em termos de encomenda. Os concursos públicos não são feitos para escolher a obra que melhor resolve o problema, são feitos para escolher a prática mais barata! É neste seguimento que há uma grande banalização da atividade do arquiteto. Claro que há clientes absolutamente inquestionáveis, que procuram a qualidade e ponto!

Mas não são assim tantos. Hoje em dia procura-se muito pelo custo mais barato dos honorários e muitos clientes não o fazem por mal, fazem-no por ignorância, porque não sabem o valor real do trabalho do arquiteto.

 

Como encaram a situação de trabalho na área?

Há, de facto, muito trabalho a fazer, mas há muita procura pelo trabalho low cost. Há uns tempos, a premissa era o ‘conceito’, depois passou a ser o ‘sustentável’ e agora é o ‘low cost’. O low cost tomou conta de todas as atividades, até das obras de reabilitação.

 

Falando em reabilitação, estiveram envolvidos no projeto de reabilitação da Sotheby’s International Realty, no Carvoeiro. Qual foi a abordagem neste projeto?

Como especialistas na área do ‘imobiliário’ de qualidade arquitetónica, a Sotheby’s International Realty escolheu sete arquitetos - não pelo preço, mas sim pelo curriculum, pela obra feita - para fazer cada um dos seus escritórios no país. O edifício com que nos deparámos era uma casa corrente no tecido urbano, já com muitas transformações. O que fizemos foi repor naquela casa as características mais próximas da espacialidade, dos sistemas construtivos e da linguagem arquitetónica daquela região. Usámos os materiais e as variações cromáticas conjugadas com a vontade do cliente. Tentámos também que a reabilitação do edifício desse, como na música, o tom a ser seguido pelos projetos de reabilitação que se sigam naquela zona, cuja natureza tem vindo a ser muito desvirtuada.

Outro projeto icónico, que vos garantiu o prémio de Best Architects 16, foi o Apartamento em Braga.

Este projeto consiste na união de dois apartamentos num único, em que o hall de entrada funciona como elo de ligação entre os dois pisos da habitação, graças ao seu pé direito duplo com uma escada que protagoniza este elo, bem como as possibilidades construtivas de novos materiais como o microcimento. No piso inferior, encontra-se a área social com um pavimento muito prático, resistente e facilmente lavável e, ao mesmo tempo, de uso tradicional em Portugal (o mosaico hidráulico), articulado com outro mais contemporâneo nas portas e apainelados (Valchromat). No piso superior, a madeira de riga, reciclada de uma construção que estava a ser demolida, dá o conforto necessário às suítes. É um projeto em que trabalhamos muito com as plasticidades dos materiais, a luz e os contrastes. Quando fazemos estes trabalhos não estamos a pensar em prémios, mas este foi muito bem recebido porque sabemos que o júri não nos conhecia de parte nenhuma, mas era formado por arquitectos nossos pares. Foi um prémio que não tinha nada a ver, também, com interesses pré-estabelecidos ou com a agenda ideológica de algum crítico.

 

Quais são os planos futuros do vosso escritório?

Gostaríamos de continuar a aumentar a escala dos projetos, bem como a sua natureza programática. Temos em mãos, por exemplo, o projeto de uma igreja em Meinedo. Mas, mais ainda, aquilo que nos interessa é motivar o cidadão comum a perceber que a qualidade deve ser a primeira exigência. Fazer entender que o desenho é um investimento necessário para que os projetos tenham qualidade e haja maior retorno. A nossa ambição é que o cidadão perceba qual é o verdadeiro trabalho do arquiteto e o peso que ele tem no investimento que vai fazer.