| Por Andreia Filipa Ferreira

Valentim Quaresma

"Sempre dei asas à minha criatividade e nunca tive limitações criativas"

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Sem medo de arriscar, concebendo peças capazes de surpreender os gostos mais inusitados, Valentim Quaresma é um dos designers mais marcantes da geração contemporânea da joalharia portuguesa. Criativo e ousado, a história de Valentim Quaresma conta-se através da paixão que coloca em cada coleção. No percurso, relembra os tempos em que assinava a coleção de acessórios da estilista Ana Salazar, com quem trabalhou de 1990 a 2010, até ao momento em que arrecada o prémio Accessories Collection of the Year no concurso International Talent Support (ITS), em 2008. A partir daí, as portas abriram-se para uma aventura a solo. Hoje, com uma carta de seguidores “muito díspar, desde clientes conservadores a clientes mais ousados, de todas as idades”, Valentim Quaresma sente que a sua visão criativa é valorizada no país que o viu nascer, mas parte à procura de reconhecimento além-fronteiras. Mas, no final de contas, nas palavras do próprio, “Portugal continua a ser muito inspirador”.

 


O nome Valentim Quaresma é reconhecido no panorama joalheiro português como sinónimo de talento e visão criativa. Como se inicia nesta atividade?

Em miúdo, não pensava em ser artista, nem pensava que algum dia teria uma profissão criativa. Gostava de ginástica e sonhava vir a ser um grande ginasta. Mas era criativo no sentido em que fazia os meus brinquedos, gostava de fazer recortes em papel e pintar. A joalharia surge na minha vida quando tinha 16 anos, no momento em que comecei a trabalhar numa oficina de uma loja, a fazer acessórios de moda. Mas eram técnicas muito básicas. Resolvi então procurar formação, na Escola de Artes António Arroio e na Ar.Co, onde me apaixonei pela profissão.

 

Vestiu-se de ousadia e foi apresentar o seu trabalho a Ana Salazar. O que retirou, em termos de aprendizagem, dos anos de trabalho ao lado da estilista?

Não tenho nem nunca tive medo de arriscar. Faço aquilo que sinto que devo fazer, na altura certa. Fiz a primeira coleção para a Ana Salazar aos 18 anos e, desde aí, não houve nenhuma coleção que tivesse feito apenas por fazer. Todas foram desenvolvidas com muita paixão. Com a Ana, aprendi a pensar a moda de uma maneira criativa e imprevisível. Tudo o que sei aprendi com ela: a perseverança, a ambição de nos superarmos sempre, coleção após coleção.

 

Acabou por lançar-se numa aventura própria, através da criação de uma marca. Isso foi como dar asas à sua própria criatividade, com peças que colocavam a roupa numa posição secundária?

Foi um percurso natural. Sempre dei asas à minha criatividade e nunca tive limitações criativas, apenas as imposições orçamentais. A roupa ficou em segundo plano, mas foi ganhando importância porque comecei a apresentar as coleções em desfiles. Percebi que fazia todo o sentido começar a pensar na roupa paralelamente às coleções de joalharia.

 

Falando em concreto da sua recente coleção Domination, como descreve as suas propostas?

Esta coleção foi essencialmente feita com resinas epóxi. Quis fazer peças que parecessem gelo e esse material era o mais indicado. O gelo estava associado à ideia de sonho pela sua transparência. Também usei fios de borracha misturados com brilhantes que fazem um contraste muito interessante. Posso dizer que os colares são sempre as minhas peças preferidas, graças à área que ocupam no corpo e pela dimensão que se pode trabalhar.

 

A nível de joalharia de autor, como vê Portugal? Há designers/clientes?

Sim, há designers e joalheiros a desenvolver trabalhos muito interessantes, mas é um mercado difícil, que depende muito do tipo de pontos de venda que cada um tem. Ainda não há o culto de procurar joias de autor em galerias especializadas. Além de que a legislação para os joalheiros contemporâneos continua muito desatualizada. A Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea (PIN) tem feito um trabalho exemplar nessa área, que pode contribuir para o desenvolvimento do setor.

 

Tem algum caminho traçado para o futuro? Novos mercados, por exemplo?

Inaugurei, recentemente, uma loja em Curitiba, no Brasil. É a primeira flagship store Valentim Quaresma. É um espaço que também vai funcionar como showroom para trabalhar a marca no mercado brasileiro. Vão ser vendidas as coleções de homem e senhora, além de coleções feitas exclusivamente para o Brasil.