| Por Estela Ataíde

Mónica Gonçalves

«A GRIGI é um bebé que não nasceu da minha barriga, mas nasceu das minhas mãos»

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Fundada em 2013 pela designer de moda Mónica Gonçalves, a GRIGI dedica-se ao estudo e experimentação de materiais naturais, locais e sustentáveis, destacando-se a utilização pioneira da malha de cortiça.
Nascida do cruzamento entre os valores da tradição, da ecologia e da sustentabilidade, a marca dá também nova vida a materiais como o burel e a seda vegetal, que são utilizados em peças de moda intemporais e duradouras.
 
Como surge a ideia de fazer uma malha a partir da cortiça, algo em que é pioneira?
Eu não apreciava a forma como a cortiça estava a ser utilizada, já era uma coisa muito cliché, que não saía do mesmo registo, e nunca tinha visto um produto que permitisse à cortiça estar diretamente em contacto com a pele e que, de alguma forma, enaltecesse e dignificasse a cortiça. Senti que se podia ir mais além e assim nasce a ideia de fazer malha para vestuário.

Fotografia por GRIGI

Além da cortiça, trabalha com burel e seda vegetal. Porquê estes materiais, locais e naturais?
A GRIGI é uma marca muito experimental e nós tentamos levar até ao limite a capacidade dos materiais. E muita gente não sabe que o burel é, como a cortiça, um material térmico e impermeável. Assim como a seda vegetal, que é um material que se identifica muito com o linho e que também se consegue interpretar como algodão. Estes materiais têm um leque de versatilidades que me permitem agradar ao cliente e mostrar que uma peça tem uma história para contar.
 
A cortiça tem vindo a ser cada vez mais utilizada em diversas áreas do design. O que gerou tamanho interesse neste material?
Acho que tudo se deve a esta crise, sem ela não se iria criar esta nova dinâmica de empreendedorismo e de inovação que se criou em Portugal. Todos já sabíamos que a cortiça tinha características extraordinárias, mas alguém começou a usá-la e a partir daí todos começaram a pensar: «se calhar com este material consigo fazer qualquer coisa».

Fotografia por GRIGI

A GRIGI é a prova de que a qualidade e os princípios são essenciais para que uma marca vingue, mesmo num cenário de crise?
Sem dúvida. Eu costumo dizer que, se não fosse a malha de cortiça, neste momento a GRIGI não estaria onde está agora, nove meses após a entrada no mercado. Porque foi um «abre-portas», parece que basta dizer «malha de cortiça» e que todo um leque se abre para a GRIGI.
 
Pelo facto de ser uma aplicação tão inovadora da cortiça?
É aquela questão de permitir que a cortiça possa tocar na pele. As pessoas viam-na como uma coisa muito estruturada, rígida. E nunca imaginaram que se conseguia chegar ao ponto de o material ser tão subtil.
 
Diz que «a grande responsabilidade do vestuário é a de influenciar fortemente um estilo de vida». Qual é o estilo de vida GRIGI?
Como empresária, a minha intenção é vender, obviamente. Mas, como designer de moda e como marca, quero que as minhas peças durem 80 anos. Acho que basta termos uma peça que seja boa, com a qual nos estejamos a sentir bem. Não precisamos de ter o armário cheio, essa futilidade que existe hoje em dia. E é esse sentido que eu procuro com a GRIGI. E eu sou muito, muito exigente com os acabamentos das peças, para elas terem o máximo de durabilidade possível, porque se eu estou a prometer isso ao cliente, isso tem de estar garantido. Tudo é estruturado ao milímetro na GRIGI.
 
Falemos das novas coleções.
Estamos agora a entrar na segunda coleção propriamente dita. Temos a primeira, a Natural Box, que foi o boom da GRIGI, e a nova, para a primavera-verão 2015, que fomos apresentar em Paris e Milão. E depois temos uma coleção-cápsula de mantas mindericas, que tem três temas: a parte clássica, uma parte mais trendy e depois tem a parte comercial, que está muito relacionada com bolsas, malas... Mas, ainda hoje as pessoas me estão a comprar a primeira coleção.
 
Isso vai precisamente ao encontro do propósito da marca, de criar peças duradouras.
Exatamente. E a nova coleção tem os mesmos registos, a mesma paleta de cor, embora em termos de malha de cortiça não tenha tantas peças, porque procurei cortar um pouco no consumo da malha, para não tornar a malha uma coisa tão banal.
 
Define a GRIGI, acima de tudo, como um laboratório. É o desejo de inovar, descobrir e experimentar que a impulsiona?
Completamente. O meu ADN mesmo é a parte do experimentar, do criar, pesquisar. É sem dúvida o meu registo nº1.
 
Qual tem sido o feedback à GRIGI?
Extraordinário. Costumo dizer que a GRIGI é um bebé que não nasceu da minha barriga, mas nasceu das minhas mãos. E é o meu bebé, que eu estou a ver crescer, que ainda não sabe falar, mas já sabe dar os primeiros passos. E sinto-me uma mãe orgulhosa. A GRIGI lançou-se no mercado a sério em janeiro e aquilo que está a acontecer agora era o que eu perspetivava para daqui a dez anos. Nunca tive um feedback negativo. A GRIGI está a crescer e isso é igual a postos de trabalho, neste momento já somos sete pessoas. 
 
O que ainda sonha para uma marca que está a superar todas as expectativas?
Que se torne a Casa GRIGI, que alguém venha e pegue na malha para uma linha de sapatos, gostava que alguém pegasse na malha para a área da agricultura, porque a malha tem imenso potencial para agricultura…E começar assim a desdobrar-se, a tornar-se mesmo numa casa.