| Por Maria Pires

Isa Clara Neves

"Portugal tem de cruzar-se com a contemporaneidade"

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Nasceu no Porto e a sua vocação surgiu como uma construção, uma intuição. É licenciada em Arquitetura, mestre em Cultura Arquitetónica Moderna e Contemporânea e doutorada em Arquitetura, na especialidade de Teoria e História. Para além da prática da arquitetura, da investigação e da docência universitária, Isa Clara Neves vai exercendo outras atividades paralelas, mas complementares, como se os dias tivessem mais de 24 horas e como se o seu extenso curriculum não coubesse na sua idade. Inspira-a, sobretudo, a troca de ideias, e uma das suas grandes referências – pela dedicação, perfecionismo e generosidade – é Eduardo Souto de Moura, com quem colaborou durante quatro anos.

 

Quando descobriu que queria ser arquiteta?

Essa descoberta foi uma construção, não uma epifania. Senti-o sobretudo como uma intuição que fui auscultando. Havia também alguma apetência criativa. Tive desde pequena uma formação musical no conservatório, o que talvez me tenha despertado. A minha mãe vivia e vive ao lado de uma casa do arquiteto Viana de Lima, que sempre contemplei e de certa forma me inquietava... se fosse psicoterapeuta saberia se teve ou não importância… (risos)

Arquitetura, ensino, investigação? Por onde se move, afinal, Isa Clara Neves?

Como muitos arquitetos hoje em dia, acabo por não fazer uma coisa só. É, acima de tudo, uma escolha minha. De resto são tudo atividades muito complementares. A atividade de atelier e a investigação podem existir sem o ensino, mas o ensino não pode, a meu ver, existir sem o resto, sem a prática e sem a investigação permanente.

Há alguma investigação que esteja a desenvolver neste momento?

Estou, desde 2017, a desenvolver uma investigação intitulada “A Construção de uma Perspetiva Computacional na Arquitetura. O Contraponto Português", pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e pelo College of Arts and Architecture at The Pennsylvania State University, com bolsa de Pós-doutoramento da FCT. No fundo, um trabalho que enaltece o ego português, pois dignifica a investigação que se fez no país numa área que habitualmente atribuímos à investigação internacional.

E tem em mãos algum projeto arquitetónico?

Neste momento estou a trabalhar num projeto de uma moradia unifamiliar. Cada projeto é sempre um desafio e os clientes são parte fundamental desse processo.

O que a inspira?

Muita coisa me inspira (risos). Desde a música, ao silêncio. Às paisagens. A arte. Mas acima de tudo inspira-me a troca de ideias, os encontros...

Quem é a sua maior referência ao nível da arquitetura?

Sou eclética, difícil dizer uma. Tenho referências próximas, quase inevitáveis, como Eduardo Souto de Moura. Há momentos que considero geniais, todos eles assentes num percurso consistente e raro. Depois há outras coisas que me interessam muitíssimo. Achim Menges, de Sttuttgart, tem feito um trabalho notável na exploração do potencial de novas ferramentas digitais de conceção e construção na arquitetura. Num outro âmbito que não o da prática, uma referência incontornável para mim é Phyllis Lambert.

Como foi a experiência de trabalhar com Eduardo Souto de Moura?

Tive o privilégio de perceber diariamente o que era fazer boa arquitetura, com tempo, dedicação e espírito perfecionista. Foi uma aprendizagem feliz e profunda, que ultrapassou a de fazer projeto. Considero Souto Moura alguém de uma enorme generosidade na partilha do seu conhecimento e experiência. E na partilha do seu tempo. Talvez o mais importante que temos. 

Em Portugal, há muito património edificado por reabilitar. Como docente, acredita que as universidades preparam os arquitetos para esta realidade?

Preparamos os alunos para projetar, e isso implica uma aprendizagem para lidar com as preexistências. Tem havido, nos últimos anos, a oferta de cursos especializados em reabilitação, mas existem excelentes obras de reabilitação realizadas por arquitetos que não passaram por esse tipo de formação. E são, sim, bons arquitetos.

Qual foi o projeto com mais provações a que se dedicou?

O projeto do Ginásio, na Figueira do Foz, realizado em parceria com o arquiteto Jorge Bártolo. Pelas imensas limitações de orçamento, tivemos de recorrer a um método de construção rápido e económico.

Que desafios enfrenta a arquitetura enquanto disciplina?

Vários. (risos) A arquitetura de hoje, na maioria dos casos, é feita contra o tempo e sistematicamente subjugada a questões de orçamento. Toda a gente quer arquitetura para ontem e a baixo custo. E, como sabe, não há milagres. A arquitetura deverá manter a dignidade mesmo nestas circunstâncias. Comummente, há uma desvalorização do trabalho do arquiteto. Além disto, penso que a disciplina, e neste caso falo mais especificamente de Portugal, tem um grande desafio em mãos que é cruzar-se com a contemporaneidade. Por vezes há uma certa ilusão de que tudo já está feito, também por termos sido tão premiados nos últimos tempos (e ainda bem)! No entanto, isso não pode constituir um sedativo para que não se faça mais e se investigue mais e diferente.