| Por Maria Cruz

Victor Guerra

Fotografia

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Muitos ainda não o conhecem. Tudo a seu tempo. Certo é que Victor Guerra tem uma mente gigante, capaz de criar e recriar cenários únicos e diferentes na arquitetura de interiores. É um laboratório de ideias. Assim atribuiu o nome à sua marca LAB (Laboratório de Ideias). Nasceu em Luanda, Angola, mas não tardou em ir para a África do Sul, com os seus pais, onde esteve até aos oito anos. Depois, quando começaram os problemas do apartheid, regressaram a Portugal, a Leiria. Mas Lisboa sempre foi a sua cidade. Saiu de Portugal, por vontade própria, aos 25 anos. Os últimos 23 anos foram passados lá fora. Entre Gstaad, Lausanne e Genebra, na Suíça. Foi à procura de coisas diferentes. E encontrou muitas! Realizou-se. E, no final, voltou ao seu país – Portugal –, cheio de vontade de fazer novas “coisas”.  

 

Sair de Portugal há 23 anos era coisa para corajosos.

Fui para a Suíça. Só lá tinha a minha madrinha, que estava em Gstaad. Foi uma experiência fantástica. Adorei. Tanto a minha madrinha como o marido eram arquitetos. Ele era arquiteto e paisagista. Ela era arquiteta de interiores. Comecei a aprender com ele, mas o que mais me interessou foi trabalhar com ela, ou seja, os interiores. Compreendia e sabia como funcionava o trabalho dele: tinha um princípio e um fim. Já uma arquitetura de interior pode estar em constante evolução. Quando vou à casa de um cliente, o que acontece às vezes é dizerem-me: “Tu não olhes. Isto já não está como tu deixaste” (risos). Isso é que é interessante.

O gosto pelos interiores já estava dentro de si?

Pois, com certeza que sim. Já a minha mãe me dizia que, desde pequeno, andava sempre a mudar as coisas lá de casa. O meu quarto andava sempre às voltas. Durante os cinco anos que estive em Gstaad aprendi bastante. Adquiri uma riqueza interior. Mas queria mais. Saí de lá e comecei a procurar trabalho nas Organizações Internacionais, porque estava atraído pelo lado multicultural. Na altura, havia uma delegação em Lausanne e outra em Zurique. Um dia chamaram-me para uma entrevista, na Organização Mundial da Propriedade Intelectual, em Genebra, para ser Assistente Administrativo da pessoa com quem trabalhei 18 anos. Fui à entrevista. Mas só passado uns meses é que passei a colaborar com eles, inicialmente a 50% do tempo, e, depois, a 100%, em tudo o que era imprensa e comunicação. Certo dia, a pessoa que organizava os eventos ficou doente. Aí sugeri: “A gente pode fazer isto na mesma”. E fizemos. Passei a desenvolver essa parte de eventos e arquitetura efémera. Todos os anos, a Organização Mundial da Propriedade Intelectual junta todas as delegações dos estados membros (184) num evento, durante dez dias. A primeira exposição que fiz, mesmo a sério, foi uma exposição de arte africana, com vários quadros, no ano 2000, na sede da Organização, em Genebra. Correu tão bem que começaram a vir mais pedidos. De um país por ano passei a ter três países, durante as assembleias. E, por exemplo, o ano passado, foram sete países, durante aqueles dez dias em que houve eventos, e tive de criar conceitos completamente diferentes. Ainda hoje continuo a dar assistência à Organização, mesmo estando em Portugal.

Deixou o estrangeiro, no ano transato, e veio para Portugal para criar a LAB?

Sim, em dezembro.  A LAB é um sonho de há muitos anos. Para além do trabalho que desenvolvia na Organização, sempre fui fazendo trabalhos para particulares (amigos e pessoas próximas). O orgulho de ser português é o que está na base. Orgulho no nosso país. E do que nós temos. Sabia que cá, em Portugal, se faziam muitas coisas, coisas boas. Há dois anos perdi o meu pai, sou filho único, e analisei a situação toda: “48 anos, 23 fora, passei menos de 25 em Portugal, se calhar estava na altura de fazer algo diferente”.

A LAB ainda está em processo de desenvolvimento?

Sim. Para o showroom já encontrei dois sítios ótimos. Mas é preciso ter o feeling certo, porque sei aquilo que quero, o que tenho em mente. Neste momento estamos numa fase de conclusão do site. Este meio é um meio muito giro, muito criativo, mas é um meio muito fechado. A arquitetura de interior é, para mim, um resultado final. E o resultado final tem de estar TOP.

E o que é que a LAB vai ter para ‘oferecer’ aos clientes?

A LAB vai ter uma vertente muito forte que são os interiores. O site não vai ter muitos interiores, porque acho que um interior é uma coisa extremamente pessoal. Quero dar um cheirinho e o resto desenvolvo com o próprio cliente. Um projeto de interiores nunca é meu, mesmo que ponha muita energia, muita vontade. O projeto é sempre do cliente e pertence-lhe. Por isso, prefiro fotografar detalhes de um interior a estar a colocar aquela fotografia do clássico “antes e depois”.

Como olha, hoje, para a arquitetura de interiores?

Se formos ver, hoje a arquitetura de interiores não é só aquela coisa de decoração, escolher uma cor, um móvel, tecido, não. É muito mais. A ideia é contar histórias. Acho que os interiores devem contar histórias. Um interior não deve ser uma produção de massa. O interior só fica acabado quando tem elementos da pessoa lá dentro. Pode até ser a coisa mais foleira do mundo, mas são esses elementos que vão construir o cenário. Não há nada mais triste do que uma pessoa entrar na sua casa e sentir que não é dela, não se identificar. Não sou um defensor de tendências. Acho muito giras as tendências, mas as tendências duram uma época. Toda a gente faz, em Portugal, uma coisa: quando a Pantone lança a cor do ano surgem logo 50 mil posts a dizer “a cor do ano é lilás...”. As pessoas, às vezes, dizem: “o que é o meu gosto pessoal, e porque é que estou a ser influenciado pela comunicação, por um marketing das grandes marcas?”.

O Victor cria de raiz o projeto ao cliente?

Desenho. Nunca vou ao detalhe de dizer tudo, porque, para mim, um projeto de interiores é uma evolução. Acabei por tirar o curso de Arquitetura de Interiores, em Lausanne na Art and Design ECAL. Lembro que um dos meus professores dizia: “tem de chegar uma altura em que deve fechar o projeto, se não o projeto vai estar em constante evolução”.

E porquê LAB?

Laboratório de ideias. Que sou eu. Mas o meu objetivo com a LAB, quando tiver o showroom, é no próprio espaço da LAB poder ter um espaço, do género de um pop up store, para propor aos jovens ou empresas, que têm mesmo vontade e produto de qualidade, exporem. Uma das coisas que quero desenvolver com a LAB é a troca de contactos, por exemplo: o jovem que sai da escola, que tem montes de talento, mas, muitas vezes, parece estar perdido, pode expor coisas dele, coisas frescas, e nós encaminhamo-lo. A LAB vem da ideia de laboratório, de testar pessoas, trazer novas ideias, de tentar. Mais tarde, a LAB vai ter uma parte no imobiliário, para ajudar pessoas que queiram  comprar apartamentos, e, assim, ao mesmo tempo, podemos propor o espaço e o projeto de interiores. É um conceito.

E a inspiração de onde surge?

De tudo. De si. De uma conversa consigo.  De um detalhe com outra. Não tenho limites.