| Por Estela Ataíde | Fotografia Portugal Fashion/ Ugo Camera

Susana Bettencourt

"A minha identidade está espelhada naquilo que faço"

Fotografia Portugal Fashion/ Ugo Camera

    Tinha apenas cinco anos quando, durante umas férias nos Açores, fez malha pela primeira vez, seguindo o exemplo da avó, da madrinha e da tia, açorianas com grande ligação a essa arte. Mas seria apenas em Londres, onde viveu quase uma década, que viria a valorizar verdadeiramente os ensinamentos que lhe foram passados desde tão jovem. Licenciada em Design de Moda com especialização em Malhas no conceituado Central Saint Martins College of Art and Design e com um Mestrado, com distinção, no London College of London, foi nestas instituições que Susana Bettencourt descobriu a sua identidade criativa e percebeu a importância do seu "trabalho de mão" com as malhas.

A esta herança tradicional, a estilista começou a adicionar técnicas digitais e assim nasceu a essência da marca Susana Bettencourt, cuja sinergia entre tecnologia e artesanato levou a que tivesse Lady Gaga como primeira cliente e a que, entretanto, conquistasse mulheres um pouco por todo o mundo, como a fadista Ana Moura, uma das clientes da marca.
 
Qual é o conceito orientador da coleção outono-inverno 2015-2016, que tem estado a apresentar?
A coleção Reclaim é a reclamação da Natureza sobre os objetos do Homem. As minhas últimas três coleções têm sido sobre este tema de Natureza versus Homem. Como designer e como artista encontro as inspirações em vários temas e depois sinto que uma coleção nunca chega para explorar o tema da melhor maneira. Não fazer um tema e fugir dá um seguimento à marca, dá uma continuidade ao aspeto visual, à identidade da marca, à história que eu estou a querer contar. Espero que esta seja uma coleção de viragem a nível de aprendizagem, de maturidade da marca, de arriscar.
 
Falando de identidade, as técnicas que usa com as malhas foram em grande parte responsáveis pelo seu reconhecimento.
Estou a tentar ter uma nova visão do art and craft, acho que não é por ser artesanal que tem de ter um ar obrigatoriamente artesanal. Pode ser artesanal e ter um ar fresco, um ar novo, um ar super contemporâneo e eu tento sempre, ao pegar nas minhas técnicas de várias maneiras diferentes, dar um ar contemporâneo à coleção, mas indo buscar técnicas antigas.
 
Faz isso, por exemplo, usando técnicas tradicionais em materiais inesperados?
Exatamente. No trabalho de mão tento usar as técnicas com outros materiais, com as peças de cobre lá no meio. Na parte do jacquard, que é conhecido pelos losangos ou pelo xadrez, tento fazer a imagem que me apetece e transformá-la em jacquard. O que me dá mais garra desenvolver é mesmo a parte da técnica, perceber até onde posso puxar a tecnologia, até onde posso puxar o trabalho de mão e até onde consigo ir combinando as duas. Juntar essas duas coisas e mesmo assim elas fazerem sentido costuma ser sempre o grande desafio em todas as coleções.



"Os nove anos em Londres foram uma alimentação de criatividade enorme"


 
É esta a essência das suas peças, a conjugação da tradição com a inovação?
A marca é o que o designer é, ou seja, a minha identidade está espelhada naquilo que faço. Acima de tudo era o que eu queria mais passar para a marca, e aquilo que eu queria que se visse mais era a minha história, de onde eu venho, a parte açoriana. Mas, para o trabalho ser valorizado e não ficar com um look muito de tempos passados, tento inovar da melhor maneira que sei.
 
Passou nove anos em Londres. O que trouxe desse período?
Em Londres o que mais fazem é ajudar-nos a descobrirmo-nos a nós próprios, onde está o nosso potencial, onde é que realmente somos diferentes. Eles é que me ajudaram a encontrar a minha identidade. Os nove anos em Londres foram uma alimentação de criatividade enorme.
 
O que a levou a regressar a Portugal?
Chegou uma altura em que senti que o plano não era por ali, que sem apoio não conseguia aguentar aquelas rendas, não conseguia viver naquela cidade. Portanto ou fechava a marca que já tinha e tinha que ir trabalhar para outros ou, para manter a marca aberta, tinha que voltar para Portugal. Chegando a Portugal, concorri a uma vaga e fui trabalhar para a Salsa, que foi uma escola enorme nessa parte de preços, indústria, datas, coisas a não falhar. E foi efetivamente um ano e meio muito duro, a trabalhar a tempo inteiro para outra marca, mas querendo manter a minha marca aberta.
 
A crise que se tem sentido tem afetado a indústria da moda, nomeadamente os designers emergentes?
Eu só tenho a marca há três anos, não conheço outra realidade. A Chanel foi criada em plena Guerra Mundial, portanto se ela [Coco Chanel] conseguiu ver uma oportunidade no meio do caos, também acho possível eu conseguir vingar.
 
E o que significa para si vingar com a marca Susana Bettencourt?
Vingar é as pessoas conseguirem ver a identidade da Susana Bettencourt sem ser preciso apresentar a marca. Isto é para mim muito importante, que cada peça consiga ter a identidade da Susana Bettencourt.

Fotografia por Portugal Fashion/ Ugo Camera

Primavera - Verão 2015-2016

Fotografia por Portugal Fashion/ Ugo Camera

Outono - Inverno 2015-2016

Fotografia por Portugal Fashion/ Ugo Camera