| Por Estela Ataíde

Olga Noronha

«Não há nada que me dê mais prazer do que começar as coisas e não saber onde vão acabar»

Tem apenas 25 anos, mas a segurança de quem há muito decifrou o rumo que queria seguir. Depois de ser admitida, aos 11 anos, na Escola Engenho & Arte, no Porto, com o estatuto de aluna mais jovem de sempre, a Central Saint Martins College of Art & Design, em Londres, foi a evolução natural. Aí, incitada a encontrar a sua identidade criativa, deu os primeiros passos na criação da Joalharia Medicamente Prescrita, um conceito inovador que pretende personalizar instrumentos médicos como colares cervicais, talas ou próteses.

Empenhada em provar que o valor e a beleza de uma joia vão muito além do material de que é feita, a designer mune-se de uma energia sem fim para dar resposta aos infindáveis projetos que lhe propõem. Ao doutoramento na Goldsmiths College, e às aulas que leciona na Central Saint Martins, na University for Creative Arts, em Kent, e, em breve, na ESAD, soma a presença assídua na ModaLisboa e uma recém firmada parceria com a Eleutério, uma das mais antigas marcas portuguesas de filigrana, da qual será designer.

Fotografia por Daniel Pires / Rui Vasco

Que influência teve a Central Saint Martins nas suas criações?

Teve uma influência gigantesca. Quando comecei a fazer joalharia, as pessoas diziam: “tu fazes as coisas tão grandes”. Na altura não percebia porquê e hoje em dia já começo a perceber. No fundo, a minha estratégia subconsciente foi quase de revolta contra aquilo que é a joalharia, contra aquilo que é um anel bonito, um brinco bonito. Porque, se alguém perguntar o que é uma joia, diz-se imediatamente que é uma peça de ouro e diamantes.

 

O luxo ainda está muito preso ao material?

Extremamente preso. Por isso é que o meu percurso na Central Saint Martins foi interessante, porque somos incitados a desenvolver uma identidade própria. E eu comecei a refletir que o acessório pode não ser usável no dia a dia, mas pode ser uma estrutura filosófica que nos questione ou que nos ajude a entender o porquê de nós usarmos as coisas no dia a dia da forma que usamos. Passei de um design de produto, para de repente dizer: “o meu projeto final vai ser a Joalharia Medicamente Prescrita”. Durante esse processo comecei a perceber que não havia nada que me excitasse mais do que desafiar-me a mim mesma.

 

É uma pessoa impulsionada pelo desafio?

Não há nada que me dê mais prazer do que começar as coisas e não saber onde vão acabar. É um processo de agonia, não haja dúvida, mas é essa agonia que eu sei que no final vai dar um pulinho.

 

O conceito da Joalharia Medicamente Prescrita nasceu da vontade de, com a beleza, ajudar os pacientes na sua recuperação?

Sem dúvida, essa era a vontade principal! É dar a hipótese de personalizar, para que em vez de se ser excluído da sociedade, se seja ainda mais incluído num sentido de curiosidade. Existe uma técnica japonesa milenar – o kintsugi - que diz que se um prato cai e fica aos bocadinhos, pegamos nos cacos e unimos com resina com pozinho de ouro. E a peça fica ainda mais bonita do que antes, quando era perfeita. Portanto, é à imperfeição que se vai buscar a beleza.


E são peças vendáveis?

Para já são vendidas como esculturas – o Colar Cervical de Filigrana, por exemplo, é uma das peças em destaque no Museu del Gioiello, em Vicenza, Itália. Mas, segundo os pareceres médicos e de bioengenharia, a Joalharia Medicamente Prescrita está pronta a colocar dentro do corpo – exceto as próteses da anca, que ainda não estão desenvolvidas a nível de serem colocadas imediatamente. É minha intenção começar a trabalhar para que entrem em laboratório e comecem a ser testadas, porque têm efetivamente potencial para serem implantadas.

 

Pretende que a Joalharia Medicamente Prescrita seja o foco do seu trabalho?

A minha vida terá três focos: uma parte será a investigação académica - o ensino e a investigação da Joalharia Medicamente Prescrita; outra será o design performativo apresentado na ModaLisboa; e a outra parte será efetivamente a joalharia de luxo. Neste momento tenho as três partes e dou-me por muito feliz.

 

Como gostaria que a marca Olga Noronha fosse definida daqui a 10, 15 anos?

Que marcasse pela diferença e fizesse as pessoas pensar, porque tudo o que faço no fundo é para fazer alguém pensar e refletir naquilo que faz de uma forma instintiva. Porque no meu ponto de vista tudo tem razão de existir, mas às vezes é preciso parar para perceber.