| Por Estela Ataíde | Fotografia ©PedroSadio&MariaRita@thatimage; ©Francisco Sá Bandeira

GUTA MOURA GUEDES

«A comunidade criativa nacional tem observado um desenvolvimento muito forte»

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Criada em 1998 com o propósito de estimular, promover e divulgar a produção cultural, a experimentadesign somou ao longo dos últimos 15 anos mais de 75 projetos culturais nas áreas do design e da arquitetura, em Portugal e no estrangeiro. Tendo a Bienal EXD como a sua iniciativa mais emblemática, a associação tornou-se numa referência incontornável na produção e difusão de conteúdos criativos.
No ano em que a plataforma comemora o seu 15º aniversário, Guta Moura Guedes, cofundadora e presidente, falou à Trends sobre o percurso da experimentadesign, o seu impacto na comunidade criativa portuguesa e sobre o que ainda falta fazer na promoção da cultura em Portugal.
 
Como têm sido assinalados os 15 anos da experimentadesign?
Acima de tudo com um trabalho de fundo que visa uma reestruturação profunda da bienal e um investimento em novas linhas de programação e atuação. Os 15 anos são um momento de viragem e a celebração centra-se na concretização dessa viragem. Como elemento simbólico e de registo, estamos a preparar um livro sobre os 15 anos da associação.
 
Que balanço faz destes 15 anos?
Um balanço extremamente positivo do qual todos nos orgulhamos. São mais de 75 projetos em 15 anos, de uma enorme diversidade. Com componentes de ação social, de formação, de investigação, de promoção. A experimentadesign tem investido enormemente na criatividade nacional, na competência e na formação da nossa classe criativa, bem como na formação do público em geral.
 
Qual tem sido o grande contributo da experimentadesign?
Para além de ter posicionado Lisboa e Portugal no circuito dos grande eventos culturais com a Bienal EXD, tem tido um trabalho fundamental na área da formação dos públicos, da investigação, da experimentação e da aplicação do conhecimento à realidade, reforçando o papel fundamental da cultura e das disciplinas de projeto na construção de uma sociedade melhor e mais sustentável. Tem também promovido a criatividade nacional no estrangeiro de forma exemplar e continuada e estabelecido pontes essenciais entre designers e a indústria e designers e o grande público.
 
O que mudou no panorama criativo nacional desde 1998?
Imensas coisas. A comunidade criativa nacional tem observado um desenvolvimento muito forte, quer em termos quantitativos quer em termos qualitativos. Houve um sedimentar desta classe criativa e um forte amadurecimento. Criaram-se novos valores, aprofundaram-se os valores existentes e hoje esta é uma área com imenso potencial, real, cosmopolita e pronto a ser utilizado em variadíssimos territórios.
 
Há uma lacuna na preparação do público para o consumo de produções culturais?
Neste momento muito menor do que em 1999. Nessa altura, questões ligadas ao design e à arquitetura ainda eram questões bastante desligadas do grande público. Neste momento já é muito diferente. No entanto, há sempre que ter em atenção e saber bem sobre o que falamos quando falamos de produções culturais. Depende muito das especificidades do conteúdo que é apresentado, do seu caráter mais ou menos inovador e do seu grau mais ou menos experimental.
 
E do lado da produção, o que falta fazer? Existe a devida formação e apoio à criação?
Não, continua a não existir. Na minha perspetiva, a produção cultural devia ter um sistema semelhante ao que se verifica na área das ciências, onde existem apoios para programas de investigação e experimentação. A este nível a cultura é equiparada à ciência, no que se refere ao desenvolvimento da nossa espécie, e esse trabalho é um trabalho que não tem retorno económico direto e como tal deve ser apoiado.
 
Em Portugal a cultura já está democratizada?
O que eu observo em Portugal é que somos um público educado, curioso, disponível e empenhado. O processo de passagem dos produtos culturais está completamente democratizado. Pode haver alguma inércia, aqui e ali, no seu consumo, mas a cultura está aí, está na rua, nos teatros, nas conferências, nos museus, nas galerias, nos livros, nos concertos, por todo o sítio.
 
A produção nacional, seja no design, seja na arquitetura, tem sido cada vez mais reconhecida fora do país. Vê esse reconhecimento acontecer cá?
Acho que sim. Lentamente, com mais protagonismo, natural, na arquitetura, mas cada vez mais se reconhecem os nossos valores e se tem orgulho dos mesmos.
 
A próxima Bienal EXD acontece em 2015. O que já pode revelar dessa próxima edição?
Estamos neste preciso momento em renegociação dos protocolos que viabilizam a próximas edições, mas o que está na mesa é uma nova versão da bienal, sobre a qual não posso ainda revelar detalhes.
 
Será em Portugal ou é tempo de uma nova edição fora do país?
Em Portugal sempre, as incursões da bienal fora de Portugal serão sempre esporádicas e em 2015 estaremos por cá. Depois logo se verá, continuamos com Brasil e outras geografias no nosso radar.
 
O que podemos esperar da experimentadesign nos próximos 15 anos?
Uma forte diferença não relativamente aos objetivos e à sua visão central, mas sim à forma como iremos atuar. Vamos concentrar-nos na produção de realidade combinada com investigação e produção de conhecimento. Menos programação efémera, mais projetos no terreno e ações que visam uma aplicação direta do design, da cultura de projeto e da rede internacional que temos para a melhoria de vida das pessoas.