| Por Estela Ataíde

Pedro Campos Costa

"A arquitetura é uma disciplina de generalidades, universalista"

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Queria ser cineasta. Como aconteceu esta mudança de rumo para a arquitetura?

Candidatei-me à Escola Superior de Cinema e não entrei, entrei em Arquitetura, no Porto. Não sei se posso dizer que é um mudar de rumo, não me lembro de pensar assim. Na altura tinha muitos interesses - teatro, artes plásticas, literatura, musica -, que explorava paralelamente. Sempre me senti um autor à procura das minhas personagens, mais que do uma personagem à procura de um autor.

 

Sente-se concretizado, a trabalhar nesta área?

Se assim não fosse não conseguiria fazer nada. Transformo com facilidade o trabalho em prazer. Isso pode parecer uma banalidade, mas na prática é uma forma de vida. Fascina-me a abrangência da disciplina, é uma área muito ampla e eu uso esse potencial, faço design, projetos urbanos, instalações e layout de exposições. Já fiz cenografias, ensino e organizo workshops, fui curador de várias exposições e eventos, escrevo, estamos a fazer projetos de investigação no atelier… A arquitetura nas últimas décadas especializou-se, ao ponto de haver arquitetos que só fazem hospitais, outros só casas. Tradicionalmente a disciplina nunca foi assim, porque os seus fundamentos estão nesta abrangência. Sem distanciamento crítico é difícil fazer arquitetura, os especialistas dificilmente conseguem ver o geral, só o particular. A arquitetura é uma disciplina de generalidades, universalista.

 

O “olhar de cineasta” ajuda-o no seu trabalho como arquiteto?

Digo com frequência que me fascina a forma das ideias, mais do que a forma das coisas. Tenho as minhas dúvidas se aqui existe olhar cinéfilo, no campo das ideias há uma procura noutras disciplinas. Isto claramente ajuda-me a perceber os guetos de conhecimento, como diz o arquiteto Gonçalo Byrne. Estes guetos de conhecimento dizem-se proprietários de áreas da cidade: o centro é dos historiadores, as zonas pobres dos antropólogos e sociólogos, a expansão da cidade dos arquitetos, o território dos geógrafos. Mas, na minha opinião, o território é multidisciplinar e não tem dono. Não sei se esta visão integradora e inclusiva é de cineasta, para mim é necessariamente de arquiteto.

 

Venceu o prémio FAD 2015 com o projeto de reabilitação do Ozadi Tavira Hotel, com o júri a elogiar a “inteligência e sensibilidade” com que abordou o trabalho. Qual foi o maior desafio deste projeto?

Tínhamos um budget muito reduzido e tínhamos que fazer uma reabilitação, que é sempre um trabalho delicado e, às vezes, dispendioso. O termo reabilitação é um termo médico e, tal como na medicina, é preciso perceber se cortamos, fazemos próteses ou operação ou deixamos estar. Este diagnóstico é importante para avaliar o que fazer e como fazer. Esse foi o desafio, transformar um budget muito pequeno num hotel funcional, confortável e acrescentar valor. Sou bastante crítico em relação à forma como se está a tratar o turismo – sem regulação, sem pensamento crítico, sem momentos de qualidade. Gerar uma dependência de um recurso e destruí-lo com a sua exploração é uma atitude contraproducente equivalente à proverbial matança da galinha dos ovos de ouro. Ao contrário do que dizem certas mantras comerciais, um hotel não é só camas e localização. O turismo quer diferenciação e customização; e a generalização e repetição de modelos produz saturação e irritação tanto para turistas como para a população. Com este projeto provámos que a arquitetura cria efetivamente mais-valias; que mesmo um hotel na EN125 pode ter sucesso e estar lotado – como está atualmente o Ozadi. Por isso, estou particularmente contente por este prémio ter reconhecido um edifício de uso turístico.

 

Em 2014 foi curador do Pavilhão Português na 14ª Exposição Internacional de Arquitetura, na Bienal de Veneza, com o projeto Homeland – News from Portugal. Porquê um jornal ao invés de expor trabalhos de arquitetos? Mais do que exibir a arquitetura, é preciso pensá-la, debatê-la?

A ideia dos jornais respondia a um conjunto de condicionantes: o tema, a forma, o budget, o espaço (que não existia). Criámos conteúdos ao longo dos seis meses, trouxemos a Bienal a Portugal, com o envolvimento de seis municípios e criámos projetos. Tenho tido boas notícias e alguns desses projetos estão muito bem encaminhados, daqui a um ou dois anos talvez se possa fazer uma exposição a mostrar a arquitetura que nasceu a pretexto disso. Só aceitei esta curadoria por motivação patriótica, num contexto muito complicado para o país, e estou satisfeito porque penso que toda a equipa fez um magnífico trabalho, muito bem acolhido internacionalmente e com influência nacionalmente, que era o meu maior objetivo.

 

Onde se encontra espaço para atuar, numa altura em que há tão pouco investimento na construção?

Acho que a representação portuguesa na Bienal de Veneza dá algumas pistas. Nas periferias, nos bairros informais, nas zonas nobres ou em zonas de paisagem protegida, territorialmente e em processos de reabilitação, em processos de ocupação dos centros de forma temporária. Não falta espaço nem assunto. Mas é necessário escavar, lavrar, regar e ter paciência, não desistir. O terreno não é fértil, é preciso trabalhá-lo.

 

A própria arquitetura tem que se reinventar, enquanto disciplina?

Ao contrário, tem que voltar a ser aquilo que sempre foi. Ligada à sociedade, ao território e à política. Descer do castelo hermético onde se discute entre arquitetos e encontrar aquilo que nos rodeia. É realmente necessário assumir a arquitetura como ela sempre foi: universal, transversal, artística e técnica, a responder àquilo que são as visões, tensões, pulsões da sociedade.    

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