| Por Estela Ataíde

Fernando Guerra

«Só me interessa fotografar espaços que já estão habitados»

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Pioneiro na arte de fotografar e comunicar arquitetura, Fernando Guerra define-se simultaneamente como «um arquiteto que faz fotografia» e «um fotógrafo que pode fazer arquitetura».
Licenciado em Arquitetura, depois de exercer a profissão em Macau durante cinco anos, regressou a Portugal para aliar a arquitetura à sua eterna paixão pela fotografia. Juntamente com o irmão Sérgio Guerra criou, há cerca de 15 anos, o estúdio FG+SG, especializado em fotografia de arquitetura e, posteriormente, o site Últimas Reportagens, um valioso acervo fotográfico da arquitetura contemporânea onde centenas de reportagens mostram o olhar de Fernando Guerra sobre dezenas de obras da autoria de arquitetos nacionais e internacionais.
 
A formação em arquitetura torna o seu trabalho diferente do dos restantes fotógrafos de arquitetura?
Sim, claro que sim. Os cursos são sempre importantes, porque nos ensinam a pensar e a resolver problemas, a esquematizar formas de os resolver. Aquilo que se passa com o curso de arquitetura e aquilo que eu faço hoje é precisamente ensinar-me a ver arquitetura.
 
O seu olhar é o de um fotógrafo ou de um arquiteto?
Isso é o mesmo que perguntar-me se sou mais arquiteto ou sou mais fotógrafo. Não tenho uma resposta precisa, porque acho que sou um arquiteto que faz fotografia, mas também sou um fotógrafo que pode fazer aquitetura. É muito complicado, porque sou o resultado destes 27 anos a fotografar e a fazer aquitetura, a viver a arquitetura todos os dias. Sou um híbrido.

Fotografia por Joana Guerra

Como acontece o processo de fotografar um projeto?
É a primeira visita à obra que me diz aquilo que eu tenho que fazer. Geralmente começo cedo e acabo tarde. Durante o dia, o sol diz-me o que é que eu devo fazer. O sol ou o nevoeiro ou o que for. O processo em si é muito natural, vou muito atrás daquilo de que gosto.
 
Nas suas fotografias os espaços já estão «habitados». É esta presença humana na arquitetura que lhe interessa registar?
Só me interessa fotografar espaços que já estão habitados. Não quer dizer que não faça edifícios vazios, mas gosto de casas que não só têm a arquitetura completamente pronta, mas que também têm a família dentro. Tudo adiciona camadas de informação àquilo que é o objetivo principal da casa, que é ser vivida. Quando digo em relação a uma casa, digo em relação a um museu, a um edifício. Apanhar os espaços a serem vividos é o meu objetivo, até porque a fotografia que eu fiz durante dez anos, antes de começar a fazer fotografia de arquitetura, foi precisamente apanhar as pessoas no seu ambiente natural. Não me interessava de todo fotografar arquiteturas, nem mesmo as que eu fazia quando estive em Macau, porque fiz bastantes obras durante cinco anos. Não tinha sequer essa vontade de registar aquilo que eu fazia, porque a fotografia de arquitetura para mim era muito aborrecida. Só acordei para ela quando percebi que podia juntar a minha fotografia de sempre com aquilo que é a disciplina da fotografia de arquitetura. As coisas mudaram completamente, tanto a maneira como fazemos as fotografias, como as consumimos, como as mostramos, como as comunicamos.

Fotografia por Fernando Guerra | FG+SG

A fotografia influencia a forma como determinado projeto arquitetónico é percecionado por quem apenas o conhece por esse meio?
Umas das coisas boas deste trabalho de fotografia de arquitetura é precisamente fazer-me sentir como um mensageiro, não sou mais do que isso. E a fotografia curiosamente cria egos nos fotógrafos que são bastante maiores do que eu vejo em qualquer outra profissão. Os egos neste meio são brutais, porque as pessoas acham que são os contadores da verdade, mas nós somos apenas mensageiros, a estrela ali é o edifício.
Existe o receio de «comunicar» mal um projeto, de descurar um detalhe que possa ser fundamental na compreensão de um edifício?
Claro. Os arquitetos contratam-me porque gostam da minha obra. Mas, a partir do momento em que chego à obra, no dia da sessão, tudo aquilo que fiz para trás para eles vale zero, só interessa aquilo que vou fazer naquele dia. Isso dá uma humildade gigante, porque todos os dias temos que começar do zero. São 12 horas sem parar, a trabalhar, atrás da fotografia. Todos os dias para mim são um novo princípio.
 
A fotografia de arquitetura deve ser objetiva ou nasce sempre de um olhar muito pessoal do fotógrafo?
É muito pessoal. E repare, eu tenho tanto trabalho que facilmente poderia pôr mais três ou quatro pessoas a fotografar, só que isso era quase um franchisado. As pessoas querem que seja eu a fotografar, não querem que seja um colaborador a fotografar.
 
O Últimas Reportagens tem o maior acervo fotográfico de arquitetura contemporânea portuguesa. Que impacto teve em termos da visibilidade internacional do trabalho dos arquitetos nacionais?
Na década passada fazia-se muita coisa em Portugal, chegava-se a qualquer terriola e estava-se a acabar o novo museu ou o novo teatro. Quando eu comecei, em 2004, o Últimas Reportagens, a minha vontade era precisamente partilhar aquilo que estava a ser feito em Portugal, porque não havia veículos que mostrassem aquilo que se fazia. E, de repente, o Últimas Reportagens passou a ser o sítio onde os editores lá de fora vinham ver aquilo que se estava a fazer em Portugal. O que é curioso é que agora não só tem o acervo de Portugal, como começa a ter o de outros países, como o Brasil.
 
Tem trilhado um percurso de sucesso na fotografia de arquitetura. O que ainda lhe falta fazer?
Eu sinto que estou a aquecer os motores, não sinto de maneira nenhuma que tenha chegado a algum lado, nem que possa descansar. Estou a tentar fotografar melhor todos os dias, estou a tentar comunicar aquilo que faço, inventar novas formas de fazer fotografias.