| Por Estela Ataíde

Ana Aragão

"Hoje sou os meus desenhos, levem-me eles onde for"

Fotografia Direitos Reservados

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Estudou arquitetura, mas nas aulas de Doutoramento distraiu-se das lições em urbanismo e desenho da cidade para rabiscar os primeiros traços daquele que viria a ser o seu novo caminho, rumo ao mundo dos projetos que não saem do papel. Hoje, mais do que definir-se como pintora ou ilustradora, Ana Aragão prefere apenas dizer que faz desenhos, que batizou como “anagrafias” e onde a passagem pela arquitetura se traduz em cidades imaginárias que se erguem no papel. Mais do que histórias de cidades, cada uma das suas paisagens urbanas e labirínticas pretende dar vida à componente humana, contando as histórias das pessoas que as habitam.

Apesar de ter abandonado a prática da arquitetura para se dedicar à ilustração e à pintura, continua muito ligada à sua área de formação, desenhando edifícios e cidades. Era inevitável esta temática?

Sim, aliás continuo a identificar o meu trabalho mais com a arquitetura do que com a pintura ou com a ilustração. O curso foi um longo mergulho no universo da arquitetura, sendo que o desenho é também uma disciplina central na formação, pelo menos no Porto. Por agora o meu objetivo é fazer projetos no papel. Não me interessa construir os meus projetos utópicos, o que me afasta da verdadeira arquitetura. Mas tenho uma necessidade grande de criar, de fazer aparecer no papel coisas que antes não estavam lá. E preciso de desenhar à mão, de articular pensamento, mão e matéria.

 

A relação com a ilustração tornou-se tão forte que criou até a sua própria definição para os trabalhos que faz – “anagrafias”. Qual é a história deste nome?

“Anagrafias” foi o título que inventei para uma exposição minha. Ana, além do meu nome, significa, enquanto sufixo, inversão, mudança, repetição. Estes são curiosamente temas-chave no meu trabalho. Inversão de sentido, inversão da lógica; mudança do lugar de onde olhamos; repetição como criação de continuidade, regra e exceção. Interessa-me a ideia de grafia, associado ao riscar, à linha, à construção de uma linguagem. O vocábulo não existe, mas se existisse assentar-me-ia lindamente.

 

Onde entram as pessoas nas suas cidades imaginadas?

O lado humano da representação é o mais importante e, como qualquer tema central, permanece indizível. Quando as palavras são verdadeiramente importantes, não as dizemos. São questões latas as que me absorvem; não me interessa apenas o “onde” e “quando”, mas sobretudo o “quem”. As paisagens desenhadas só fazem sentido quando habitadas por quem as investiga com o olhar e, sobretudo, com a imaginação. E só fazem sentido porque existe um “eu” que as desenha. O urbano é um apenas um pretexto para o humano.

 

Guia-se pelas regras da arquitetura ou, pelo contrário, cria suas próprias regras?

Crio as minhas regras. Porque no mundo bidimensional tudo me é permitido. Na realidade um edifício não pode voar, ou organizar-se como muitas das minhas estruturas. É isso que me agrada no desenho. Tenho total liberdade. Também me interessa o facto de o trabalho depender apenas de mim, enquanto na arquitetura existem muitos intermediários entre mim e a obra. Contudo, é curioso porque costumo começar a desenhar de baixo para cima, tal e qual como se constrói uma obra de verdade.

 

Há uma componente crítica à cartografia atual do território no seu trabalho?

Sim. O modo como cartografamos o território atualmente é um assunto que me intriga. Já não é possível usar o desenho para cartografar uma cidade, como se usava antigamente. O crescimento da cidade tradicional para manchas irreconhecíveis e globais é mapeado por sistemas digitais de cartografia que se atualizam constantemente. É impressionante como hoje nos relacionamos com o território e como nos orientamos. Os meus trabalhos revelam uma certa nostalgia pela ideia de dérive flaneuriana; procuro cartografar psicogeografias como reação ao permanente direcionamento unicursal que a sociedade nos impõe.

 

As suas obras, que são todas feitas totalmente à mão, têm em comum o facto de serem extremamente pormenorizadas e, logo, sujeitas ao erro no traço. Na criação começa com lápis que transita para a caneta e a tinta, para se proteger das falhas?

De facto os meus trabalhos são todos feitos à mão, o que dá uma grande margem para erro. Como brincadeira, costumo dizer que a desenhar não falho. Claro que é apenas uma forma de dizer que os erros são incorporados no desenho e passam a fazer parte dele, dando azo a figuras que não tinha previsto antes. É impossível prever os desenhos com lápis antes. Utilizo o lápis para definir a forma global, os limites e algumas linhas gerais. A partir daí, quando se trata dos meus desenhos a caneta preta, estou sem rede. O desenho vai-se definindo e os detalhes vão aparecendo em tempo real: desenhado.

 

Reinventou-se para de arquiteta passar a “fazer desenhos” ou hoje as duas artes coexistem em si?

Hoje sou os meus desenhos, levem-me eles onde for.

Fotografia por Direitos Reservados

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