| Por Andreia Filipa Ferreira | Fotografia Jérôme Galland

Oitoemponto

"Somos uma marca que usa e abusa do artesanato português"

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Com uma visão moderna da decoração, combinando os tons brilhantes com as cores mais sóbrias, a Oitoemponto é uma marca portuguesa que prima pelos projetos marcadamente luxuosos, a pensar no segmento alto do mercado. Com o talento de Artur Miranda e o savoir-faire de Jacques Bec a conduzir as rédeas de uma marca que privilegia a capacidade artesanal portuguesa, a Oitoemponto tem vindo a quebrar as barreiras dos códigos estabelecidos e a demarcar-se pelas criações originais, seja a nível de design de interiores, seja em termos de arquitetura. Com sucessos além-fronteiras, a marca tem agora sob sua alçada o projeto de requalificação do edifício que dará origem, em 2017, ao hotel Monumental Palace, na baixa do Porto.

Glamour vintage, exuberância, modernidade. São estes os adjetivos caracterizadores da Oitoemponto?

Em primeiro lugar, somos uma marca que usa e abusa do artesanato português, levando excelentes produtos para um contexto internacional. Desde muito cedo que a Oitoemponto se decidiu, sem qualquer tipo de problemas, a trabalhar para um nicho de mercado - o mais alto possível -, e essa opção dá oportunidades de emprego a centenas de portugueses todos os meses. Depois, nós gostamos de História, do passado, de conforto, de luxo! Costumamos dizer que só não gostamos mesmo de flores de plástico, porque é um contrassenso.  De resto, tudo é válido. Gostamos de adivinhar as tendências. Não temos a pretensão de dizer que somos trends makers, mas a verdade é que andamos pelo mundo, sentimos as evoluções e as influências das pessoas sob os projetos. Não diríamos que temos um estilo caracterizador porque achamos que um estilo muito marcado é algo que passa com o tempo. Somos mais ecléticos que isso.

 

Tendo em conta que a Oitoemponto é formada por uma dupla, o Artur e o Jacques, como é que coordenam o processo criativo? Há dificuldades?

Não há dificuldade nenhuma pela simples razão de que o nosso processo criativo é feito numa luta incessante, numa ‘batalha campal’ todos os dias (risos). Se um de nós diz que algo é preto, o outro diz que é branco, mas, no final, não será preto nem branco, será um cinzento, vermelho ou amarelo que sairá desse confronto. Colocamos os dois pontos de vista em cima da mesa e daí surge algo bem conciso e forte.

 

Desde 2007 que a Oitoemponto combina os projetos de decoração com a arquitetura. Enveredar também para projetos de arquitetura apresentou-se como um rumo natural para a marca?

Sim, porque no minuto em que decidimos trabalhar para um mercado topo de gama, apercebemo-nos que os nossos clientes queriam ter casas que, no seu exterior, fossem fantásticas. Mas a nossa preocupação é a pessoa. A primeira coisa que a pessoa vai viver é o interior da casa, não o exterior. Então, para projetarmos o exterior, temos de perceber as vivências das pessoas. Se são muitos ou poucos habitantes, se gostam ou não de ver televisão, por exemplo. Há uma data de condicionantes que fazem com que a casa tenha de ser articulada a partir do interior. O exterior, para nós, torna-se uma casca. Uma casca para uma vivência.

 

A Oitoemponto fica então responsável por todas as fases dos projetos?

Nós hoje em dia entregamos projetos completos. Costumamos dizer que começamos em campos de milho e acabamos com salada de milho à mesa, servida numa fantástica mesa, com uma boa cadeira e um excelente prato. O processo é transversal. A arquitetura segue a lógica de evolução da nossa marca, já que os nossos clientes viram em nós uma certa apetência. Neste aspeto, contamos com a ajuda de uma série de arquitetos que trabalham connosco e assinam sob a nossa marca.

 

Falando de projetos, é impossível não nos focarmos na atuação da Oitoemponto no hotel Monumental Palace, na baixa do Porto. Qual é a linha de pensamento para este projeto?

O Monumental Palace, a nível de arquitetura base, está a cargo da Rodapé, mas nós entramos, como se diz lá fora, como diretores criativos. Tentamos encontrar uma lógica para um edifício dos anos 30, uma lógica que siga a ideia do cliente, que é fazer um hotel de luxo que se demarque dos restantes edifícios clássicos existentes na cidade do Porto. Mas, mesmo com detalhes clássicos, não queremos que o projeto seja demasiadamente clássico tradicional, só com cadeiras Luís XV e Luís XVI. Queremos algo mais. No edifício encontramos imensos detalhes dos anos 30 e achamos legítimo aproveitá-los, mantendo o equilíbrio entre o passado e o presente. Vamos ter de adaptar, tentando criar algo mais contemporâneo e, acima de tudo, confortável.

 

Acreditam que a reabilitação das estruturas, mais do que a própria criação, será então a arquitetura do futuro?

Achamos que temos de cuidar do passado, porque não existe futuro sem passado. Temos uma grande paixão pela modernidade, mas temos horror ao modernismo (risos). São duas palavras parecidas, mas situações muito diferentes. A modernidade é feita com total conhecimento do passado, aceitando, reciclando, revigorando e continuando a viver. E o modernismo é feito com o chamado ‘está a dar’ – e nós odiamos! Porque esse ‘está a dar’, daqui por quinze minutos, já não está. Os nossos valores são mais fortes. Somos apaixonados por história da arquitetura, da arte, etc. e todos esses valores entram na nossa criação.