| Por JOÃO AFONSO RIBEIRO | Fotografia João Morgado

OODA

Acrónimo arquitetónico

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Observar, Orientar, Decidir e Agir são os preceitos básicos de um jovem escritório de arquitetos do Porto e são, também, os verbos que funcionam como acrónimo para o próprio nome do atelier. A OODA, de Rodrigo Villas-Boas, Diogo Brito e Francisco Lencastre, ganha forma em 2009, ainda que o projeto já estivesse na mente dos seus criadores desde 2007. Rodrigo trabalhava no escritório da OMA, do Pritzker holandês Rem Koolhaas, enquanto Diogo exercia no escritório de Zaha Hadid, a iraquiana-britânica, recentemente falecida, que se tornou na primeira mulher a receber o prémio máximo da arquitetura. Francisco Lencastre, que só formaria o trio mais tarde, em 2011, é também arquiteto de formação e, apesar de não ter tido nenhuma experiência no estrangeiro, tem no currículo o prémio nacional de arquitetura SECIL, para o melhor projeto final de curso, em 2007.

De regresso ao curioso acrónimo escolhido para dar nome ao atelier, Rodrigo Villas-Boas explica que o “ciclo OODA (observar, orientar, decidir e agir) foi um conceito originalmente aplicado ao nível estratégico das operações militares”, algo com o qual os três jovens arquitetos se identificam e que, de alguma forma, como sublinha Rodrigo, “se pode aplicar também ao método de fazer arquitetura”. 

O primeiro trabalho que a OODA adjudicou data de 2010 e, não obstante ter sido o primeiro, foi um dos mais emblemáticos projetos que o atelier ostenta no portefólio. O projeto consistia na reabilitação de um prédio na Rua Dom Manuel II, no Porto, e que foi batizado como DM2. O conceito de recuperação do edifício, em pleno centro histórico da cidade, viria a ter honras de finalista, em 2015, nos afamados prémios Building of the Year, promovido pelo site de arquitetura Archdaily. “O mais relevante nesse prémio é a enorme visibilidade que dá a todos os participantes, sobretudo aos finalistas e vencedores, e isso é crucial numa profissão como a nossa, porque ninguém compra nada que não sabe que existe”, sublinha Diogo Brito, esclarecendo que um dos maiores desafios do projeto DM2 foi “recuperar as idiossincrasias que o edifício tinha perdido, recuperar a sua presença identitária na imagem da cidade, mantendo os fragmentos de memória que a identificam enquanto, simultaneamente, se configura o edifício para pequenas habitações dotadas de todas as exigências e necessidades contemporâneas”.

O posicionamento deste escritório portuense pretende criar uma dinâmica em relação à componente laboratorial da conceção e formalização arquitetónica. O trabalho que é desenvolvido nos escritórios da OODA tem intervenção de todos os colaboradores, que são convidados a serem livres e criativos, a propor e a criticar, num esforço contínuo para que se encontrem decisões unânimes. “Procuramos encontrar os ‘vocábulos’ para uma linguagem específica em cada novo contexto ou problemática. Mais do que procurarmos os pontos comuns entre cada novo projeto e o anterior, interessa-nos encontrar as diferenças. É como se voltássemos sempre ao zero”, refere Diogo Brito. Também no Porto, a OODA teve a cargo a renovação de dois edifícios do século XIX, Loios, na Baixa do Porto, que incorporam peculiares módulos adaptáveis que se podem transformar em cozinhas, camas, casas de banho ou peças várias de mobiliário.

Fotografia por João Morgado

Se o primeiro projeto assinado pela OODA foi na cidade do Porto, onde estão sediados, em poucos anos o atelier teve o condão de se expandir para fora de portas, seguindo o caminho natural da internacionalização. “Procuramos de forma permanente expandir o nosso raio de ação e internacionalizar o nosso escritório. Fazemos concursos em todo o mundo e temos um projeto de um ginásio, construído em Chengdu, na China, feito em parceria com os arquitetos locais Ntype”, revela Rodrigo Villas-Boas. No entanto, dentro de Portugal, são também muitos os projetos que vão ocupando os criativos da OODA. “Estamos agora a fazer o projeto de reabilitação de cinco edifícios multifamiliares no Porto, o projeto de reabilitação de duas moradias unifamiliares, também no Porto, e a desenhar três moradias unifamiliares de raiz, uma em Matosinhos e duas em Lisboa. Temos um grande projeto hoteleiro na calha, mas sendo confidencial não nos é permitido revelar mais”, antecipa Rodrigo Villas-Boas.

Com forte ligação aos países de língua portuguesa, existem também projetos em hold para Angola e Brasil, como são o caso do edifício Benguela 88 e do sui generis Pirataninga São Paulo. “O passado da arquitetura portuguesa tem de facto um enorme impacto e paralelismo na comunidade dos países lusófonos que outrora pertenceram ao império colonial português. É uma tradição arquitetónica que vem desde o século XVI, onde muitos edifícios se construíram pelo mundo, à imagem de expressões arquitetónicas portuguesas”.

Para concluir, não podíamos deixar de perguntar a Diogo Brito o que de mais positivo retirou da experiência junto da Pritzker Zaha Hadid, falecida já no decorrer de 2016. O arquiteto português destaca “não tanto a linguagem ou a formalização do pensamento, mas antes a predisposição genuína para a liberdade de criação”, sublinhando ainda que, para a premiada arquiteta, “o intuitivo, a poética e a introspeção eram ferramentas da construção plástica, mas também bases do discurso de cada intervenção”.

Fotografia por João Morgado