| Por Estela Ataíde | Fotografia La Montre Hermès

Philippe Delhotal

"A relação da Hermès com o tempo é muito forte"

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Desde cedo a vida de Philippe Delhotal parecia encaminhá-lo para um futuro no universo da relojoaria. Nascido em 1962, o criativo francês era adolescente quando o avô lhe deu um relógio antigo, que prontamente desmontou, personalizou e voltou a montar. A ligação ao universo destes objetos de luxo ficou imediatamente soldada e, até hoje, Philippe Delhotal já passou pelas grandes marcas francesas e suíças de relojoaria – Vacheron-Constantin, Piaget, Jaeger-LeCoultre e Patek Philippe. Em 2009, Delhotal assumiu o cargo de diretor de estilo e criação da La Montre Hermès, de onde saem os relógios da famosa maison francesa, para a qual prevê que 2016 seja um ano de consolidação, após vários anos de novos lançamentos e reorganização das coleções.

Trabalhou com várias marcas de diferentes fabricantes de relógios antes de vir para a Hermès. A abordagem é diferente, tendo em consideração que a Hermès engloba 12 métiers?

A principal diferença é que, dentro da Hermès e graças à riqueza da oferta, temos diversas oportunidades de criatividade e uma vasta diversidade onde podemos ir buscar inspiração.

 

O savoir-faire de todos estes métiers compensa uma história e uma herança mais breves na relojoaria comparando, por exemplo, com a Patek Philippe?

A relação da Hermès com o tempo é muito forte. Os primeiros relógios datam do início dos anos 20, quando colaborámos com fabricantes de relógios suíços de renome. Em todos os artigos que cria, a Hermès tem por objetivo apresentar artigos da mais alta qualidade, que refletem uma estratégia a longo prazo, implicando, portanto, naturalmente o fabrico de relógios topo de gama que incorporem todos os valores da Casa.

 

Os métiers surpreenderam-no?

Sim, sempre através das suas especificidades, da forte componente artesanal e das singularidades dos seus artigos. Na Hermès tudo se resume a concretizar os sonhos dos seus clientes através de artigos bem trabalhados e de alta qualidade.

 

Qual o traço comum entre todos os artigos da Hermès?

São todos sobre excelência, qualidade, criatividade e singularidade. Em termos de criação, somos todos inspirados pelo novo tema inspiracional de cada ano dentro da Casa, que nos é transmitido pela Direção Artística em Paris. O tema do ano traz inspiração ao processo criativo e às novidades.

 

A Hermès aplica técnicas únicas nos seus relógios. Os detalhes únicos são a assinatura da marca?

O toque único em peças excecionais é dado principalmente pelo design do mostrador, como por exemplo, no novo Slim d’Hermès Millefleurs du Mexique, cujo design vem de um lenço Hermès. 

 

Mais do que simples relógios, os relógios da Hermès são peças artesanais?

Um relógio Hermès é mais do que um relógio, é um objeto idêntico a outras criações dentro da Casa, que acompanham os clientes ao longo da vida.

 

Pode explicar-nos o processo de criação de um relógio na Hermès?

Tudo começa com uma discussão alimentada pela curiosidade, seguindo-se o trabalho de design e os esboços e, posteriormente, as diversas versões e protótipos.

 

Graças aos 12 métiers da Hermès, tem acesso a muito savoir-faire, tal como o fabrico de artigos em couro, cristal, etc. Isso influencia a sua criatividade?

Absolutamente. Dentro da Casa existe uma riqueza criativa impressionante que pode beneficiar cada métier, quer através do design, da técnica, ou da componente artesanal. Todos os diretores artísticos se reúnem frequentemente para explorar novas oportunidades e debater os assuntos em conjunto.

 

Que outras coisas podem estimular a sua criatividade?

Entusiasmo!

 

Tem algum material ou técnica favoritos?

O couro é um material fantástico para trabalhar, graças à riqueza da oferta que existe dentro da Casa e às diversas possibilidades que oferece em termos de desenvolvimento e técnica.

 

Qual o material mais “incomum” que utilizou num relógio Hermès e que pensou que nunca iria utilizar?

Há dois anos que o cristal tem sido um material muito interessante de trabalhar. Especialmente, porque é uma linha artesanal interna e foi um grande desafio para Les Cristalleries de St-Louis e para nós no La Montre Hermès.

 

Como criativo, alguma vez teve que desistir de um design fabuloso porque não era exequível?

A técnica está ao serviço da poesia, portanto não. Desejamos que isso nunca aconteça. Até agora, encontrámos sempre soluções para alcançar os nossos objetivos em termos de criatividade.

 

O que é mais importante num relógio – o lado técnico ou o artístico?

Sem qualquer dúvida, o lado artístico. No entanto, o lado técnico serve para fazer o relógio da forma que pretendemos, como por exemplo aconteceu com o Arceau Le Temps suspendu ou o Dressage L’heure masque.

 

O que é que faz um grande relógio?

É sempre difícil prever a forma como um novo lançamento será recebido no mercado e o que faz o sucesso do mesmo. No entanto, o relógio deverá representar o ADN da marca, mantendo-se leal a ela quando fala aos seus clientes e os faz sonhar.

 

Quais as tendências que prevê para 2016, no que se refere a relógios? O que podemos esperar da Hermès?

Vejo um retorno ao essencial, com designs clássicos e intemporais. Na Hermès, vai ser um ano de consolidação, após vários anos de novos lançamentos e reorganização das coleções.