| Por Andreia Filipa Ferreira

Alejandro Aravena

Um Pritzker que elogia a habitação social

Fotografia Cristobal Palma

Fotografia Cristobal Palma

Fotografia Cristobal Palma

Fotografia Cristobal Palma

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Quando, naquela manhã calma de sábado, o telefone de Alejandro Aravena tocou, o chileno anteviu que a sua máxima que exigia que não trabalhasse ao fim de semana ia cair por terra. Qual seria o problema que teria para resolver, daquela vez, já que a Bienal de Arquitetura de Veneza, onde Aravena exercia o cargo de diretor, se aproximava a passos largos? Do outro lado da linha, Aravena ouviu a voz de Martha Thorne, a diretora executiva do Prémio Pritzker que, induzindo que o assunto da conversa seria a Bienal, lhe indica que tinha apenas algumas questões para lhe fazer. Mal Aravena sabia que a primeira pergunta seria rápida e direta: “Aceita ser o laureado do Prémio Pritzker 2016?”. Silêncio. Nem por uma única vez Aravena pensou que poderia pertencer àquela lista de mitos da Arquitetura. “E, para ser sincero, ainda hoje não consigo acreditar. Mas com o passar dos dias, os sentimentos começaram a evoluir em três diferentes direções: gratidão, quando olhava para trás; liberdade, quando olhava para o futuro; e alegria, quando olho para o presente”, afirmou Aravena, num discurso emocionado no momento da entrega do prémio, em abril, nas Nações Unidas.

Fotografia por Andrea Avezzù

“Alejandro Aravena sintetiza o renascimento de um arquiteto mais socialmente engajado. Tem um profundo conhecimento tanto da arquitetura como da sociedade civil, algo que se reflete nos seus livros, no seu ativismo e nos seus projetos. O papel do arquiteto está agora a ser desafiado a servir as necessidades sociais e humanitárias maiores e Alejandro Aravena tem respondido a este desafio de modo claro, generoso e pleno”. Foi desta forma que o júri do Prémio Pritzker 2016 destacou Alejandro Aravena como o vencedor da distinção máxima do universo da Arquitetura. Com 49 anos, o arquiteto foi o primeiro premiado de origem chilena, embora a América Latina já tenha dado provas do seu talento, após a atribuição do mesmo galardão ao mexicano Luis Barragán (1980) e aos brasileiros Oscar Niemeyer (1988) e Paulo Mendes da Rocha (2006). No entanto, esta escolha parece ter um significado especial, como se fosse uma espécie de chamada de atenção para algo específico. Na verdade, Aravena é considerado um arquiteto bastante jovem, sem um vasto conjunto de obras emblemáticas para mostrar. É possível que o júri tenha reconhecido que, com a crise económica, o regresso de uma arquitetura mais social seja crucial e, daí, optar por louvar o trabalho “inovador e inspirador” de Alejandro Aravena.

Natural de Santiago do Chile, a história de Aravena parece compor-se em torno da ideia de que a arquitetura, no seu melhor, pode melhorar a vida das pessoas. Tendo fundado o seu primeiro estúdio em 1994, o arquiteto chileno foi, anos mais tarde, convidado para lecionar na Universidade de Harvard, numa altura em que apenas tinha um edifício construído e um livro escrito. O destino levou-o ao encontro de Andres Iacobelli, um engenheiro de transportes, e a outra pergunta que o deixou em silêncio. No decorrer de uma conversa sobre o percurso satisfatório da arquitetura chilena, com vários prémios e reconhecimento internacional, Andres Iacobelli surpreende Aravena com uma pertinente interrogação: “Mas, se a arquitetura chilena é tão boa, por que razão a arquitetura social é tão ruim?” Silêncio. “Porque não fazes alguma coisa com habitação social?”, continuou Iacobelli. Surgiu assim o ELEMENTAL, um estúdio que conta com a direção de Aravena desde 2001 e que, com projetos erguidos no Chile, EUA, México, China e Suíça, se foca no desenvolvimento de projetos de interesse público e impacto social, incluindo residências, espaços públicos, infraestruturas e transportes. Mesmo tendo assinado obras de grande dimensão, como é o caso do Centro de Inovação e as Torres Siamesas da Universidade Católica do Chile ou os dormitórios da Universidade de St. Edwards, em Austin, no Texas, foram os projetos sociais desenvolvidos pelo arquiteto chileno e pelo estúdio ELEMENTAL que cativaram o interesse da Fundação Hyatt e da família Pritzker. “Alejandro Aravena oferece oportunidades aos menos privilegiados, mitiga os efeitos dos desastres naturais, reduz o consumo de energia e cria espaços públicos convidativos”, destaca o júri, mencionando, claro está, alguns dos icónicos projetos de Aravena: a reconstrução sustentada da cidade de Constitución, no Chile, após o terramoto e tsunami que a atingiram em 2010 e o projeto Quinta Monroy, na cidade de Iquique, também no Chile, que colocou o gabinete ELEMENTAL nas bocas do mundo em 2004. E abrimos aqui uns parênteses finais para falar deste projeto específico. O desafio baseava-se em realojar uma centena de famílias que ocupava, de modo ilegal, meio hectare de terreno. Sem dinheiro público suficiente para comprar o terreno e construir novas casas, a solução estava no realojamento dos residentes para áreas suburbanas. E foi aí que Aravena interveio. Já que o dinheiro não chegava para construir uma casa de 80 m2, o arquiteto avançou com casas de 40 m2, desenvolvendo as áreas que as famílias dificilmente conseguiriam erguer sozinhas, deixando o restante para ser feito mais tarde, pelos próprios residentes. Improvisando, os habitantes foram fechando os espaços deixados em aberto ao longo do tempo, tornando a Quinta de Monroy num exemplo de liberdade – e não propriamente de harmonia estética.